O ouro de tolo, naquela Saquarema de 1976, brilhava na forma de anúncios de loteamento à beira-mar, carros enfileirados na beira da lagoa. Era a modernidade vendida em carnês, a ilusão do progresso como ascensão espiritual. Mas quando Raul pisou no palco do festival, não piscou para o espetáculo: incendiou. Se o “último homem” de Nietzsche queria anestesia, Raul desejava curto-circuito. Ele não buscava o conforto dos condomínios, mas o tumulto da praça pública. E naquela noite, com o vento salgado do mar batendo nos fios do microfone, ele parecia saber: a vida não foi feita para caber na planta de um engenheiro. Foi então que a “Sociedade Alternativa” desceu sobre Saquarema como um transe coletivo. Não era um conceito, mas uma vibração elétrica. Raul, Paulo Coelho e uma plateia suada reinventavam Proudhon em versão rock de praia. “Fazer o que quiseres, há de ser tudo da Lei” escapava alto pelas caixas de som, não como citação esotérica, mas como veredicto libertário. Ali, cada um era rei e súdito de si mesmo. Não havia poder central, nem censura, nem patrão. Por alguns minutos, o festival tornou-se república autogerida: ninguém mandava, ninguém obedecia, todos dançavam.
A utopia de Raul naquela noite era dissolução do Estado em suor, poesia e desejo. Proudhon dizia que a propriedade é um roubo, Raul respondia que o mundo é dos malucos, e quem não enlouquece não vive. Não havia ideologia fechada, mas encantamento. A Sociedade Alternativa não era programa político, mas feitiço coletivo. Um Canudos elétrico à beira do mar. Não com mística sertaneja, mas com distorção, bateria e um rosto pintado de estrela. O festival se tornou um território simbólico onde ninguém precisava de identidade, profissão ou carteira assinada para existir. E então, invisível mas presente, o fantasma de Antônio Conselheiro rondou o palco. Aquela euforia rebelde tinha cheiro de canhões. Raul, olhar de profeta cansado, parecia um novo Conselheiro, não com a Bíblia na mão, mas com um rock que afrontava todos os exércitos: o de farda, terno, toga, hábito religioso. A República massacrou Canudos por não encaixar no projeto nacional; a sociedade civil tentava massacrar Raul pela mesma razão. Mas naquele festival, ninguém o calava.
Quando ele cantou “prefiro ser essa metamorfose ambulante”, o festival inteiro entendeu: estabilidade é prisão. Raul convocava o eterno retorno, não como tese, mas como coreografia. O devir não se ensina, vive. Nietzsche, ali, tinha sotaque brasileiro, cheiro de cerveja quente e sal marinho, bermuda e chinelo, gargalhada e lágrimas. Raul não falava para o “povo idealizado” dos panfletos. Falava com o povo real, que sofre, ri, tem fé e dúvida ao mesmo tempo, e dança com a morte porque sabe que o tempo é curto. E quando ele empinou a cabeça para trás para gritar, o povo respondeu. “Eu sou a mosca na sopa!” explodiu como mantra político. Não havia reforma possível: Raul queria azedar o caldo, derrubar o sistema pela exaustão, pela ironia, pela loucura, porque sabia que o novo nasce daquilo que apodrece. Ali, Nietzsche, Proudhon e Conselheiro selavam um pacto invisível, e Saquarema, temporariamente, tornou-se capital simbólica do impossível. Raul não argumentava: iniciava. Cada música, rito, verso, passagem. Era preciso ouvir com o fígado, não com o raciocínio. A filosofia de Raul é faca sem cabo e lâmina sem fio: quem pega retorna sangrando e rindo. Ele não oferece segurança, mas abismo. Não acalenta, convoca. Derruba as estruturas para que do pó surja qualquer coisa que não seja prisão. Sua promessa nunca foi felicidade: foi liberdade. Liberdade não como propaganda, mas como queda, assombro, renúncia. Liberdade de quem já perdeu tudo e, por isso, não tem medo. Liberdade de dançar sobre os escombros do próprio nome.
Quando ele deixou o palco, o festival continuou, mas não voltou a ser o mesmo. Alguns saíram rindo, outros assustados, outros em silêncio profundo, como quem assiste a algo perigoso demais para comentar. Raul não cantou apenas para o público: inaugurou uma cidade mental e deixou as portas abertas. Desde aquela noite, ela existe, subterrânea, marginal, mas viva. Raul vive não nos tributos inofensivos, mas em cada um que diz “não vou me adaptar” mesmo sabendo que o preço é alto. Em cada espírito que ri da própria ruína. Em cada coração que prefere a vertigem ao conforto. Ele é trovão vindo do sertão que encontra o Atlântico e vira música. Nietzsche tropical. Proudhon de paletó florido. Conselheiro do caos. Profeta. Maluco. Irmão. E naquela noite de 1976, Saquarema viu e nunca mais esqueceu.
Wellington Lima Amorim não entra, mas invade.
Não ensina filosofia, detona certezas.
Quando fala, Aristóteles acende um cigarro, Nietzsche ri de nervoso,
Foucault tenta anotar, porque até o caos ali tem método,
terremoto acadêmico, contrabandista de ideias ilegais, sacerdote da dúvida,
Universidade Federal do Rio Grande do Sul