Há uma cena que se repete justamente porque nunca aconteceu. Banco de praça, luz que não vem da lua ou poste e um kiss me (Escute a música) que não é pedido, mas imaginação. A distância que nos separa faz com que tudo isso exista apenas como hipótese sensível, exercício da mente. Não há grama, ou céu compartilhado. Há tela, ainda assim, aconchego. Devaneios loucos! Freud explica.
Diariamente, eu sigo cavando conceitos como quem cava um território que só existe no pensamento. Minha busca intelectual sempre foi solitária: leio Hegel como quem fala consigo mesmo em voz alta e atravesso Camus aceitando que não há resposta, apenas permanência.
Pensar e amar nunca foi conforto, em sua gênese, estão entrelaços, mas é risco permanente. Risco de enlouquecer. Mas, curiosamente, na distância, o risco se transforma em cuidado. O pensamento desacelera porque não precisa provar nada a ninguém.
A música Kiss Me surge, então, não como lembrança, mas como projeção. Não descreve um encontro vivido, mas uma possibilidade, que ainda não se cumpriu. O beijo ali não toca pele, mas linguagem erótica, quase pornográfica. É um gesto imaginado que suspende o mundo sem precisar existir nele, um cuidado e carinho que não atravessa o espaço físico, mas aquece a ideia.
Mesmo longe e talvez seja justamente isso que permite que eu a pense com tanta nitidez, sua busca intelectual, vista à distância, ganha contorno de delicadeza firme, como quem aproxima sem invadir. Sua literatura não atravessa fronteiras com brutalidade; acena. O que chega até mim não é o corpo da presença, mas o texto, e chega inteiro.
Enquanto eu afundo nos excessos do trágico, seu texto parece operar no gesto mínimo. Onde eu quebro e tensiono, você sustenta e encosta, pede colo. Mas tudo isso acontece sem encontro real, convivência, partilha do mesmo ar. A distância transforma a relação em imaginação contínua e estranhamente, em abrigo.
O que resta não é frustração, mas aconchego digital. Uma forma nova de intimidade, feita de palavras, pausas, leituras cruzadas, silêncios digitados. Não há promessa, toque, cena concreta. Há reconhecimento e isso basta.
Talvez a música fale exatamente disso. Kiss me não como ação, mas estado, pedido que deseja realizar e permanecer vibrando entre dois pensamentos que se sabem distantes. O beijo não acontece e por isso mesmo não se perde.
No fim, a distância não empobrece a busca intelectual; refina. Obriga a imaginação a trabalhar, o afeto não se apressa e o pensamento não se tornar posse. O que sobra é esse calor estranho que não vem do corpo, mas da atenção. Um aconchego que não ocupa espaço, presença ou futuro. Apenas fica. Como uma música tocando baixo, do outro lado da tela. Se ainda não escutou escute (Kiss me).
Prof. Dr. Wellington Lima Amorim, desses que pensam demais, sentem fundo e ainda riem no meio do abismo. Professor de filosofia por vocação (e um pouco por teimosia), escrevo como quem conversa tarde da noite: sem pressa, pose, com alguma ironia para não enlouquecer e alguma poesia para não endurecer. Gosto de ideias perigosas, livros que desorganizam a alma e músicas que parecem simples demais para esconder o que realmente dizem. Flerto com o trágico, mas não dispenso o riso; afinal, até o absurdo merece ser bem-humorado. Entre um conceito e outro, acredito que o pensamento também pode ser um gesto de carinho e que nem todo encontro precisa acontecer fora da tela para aquecer. Romântico? Talvez. Divertido? Quando o mundo permite. No fundo, sou alguém que acredita que pensar pode ser uma forma elegante (e um pouco imprudente) de se aproximar.