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Saquarema é o nosso Woodstock
Por Wellington Lima Amorim
Publicado em 06/01/2026 11:59
NOTÍCIAS

Saquarema sempre soube que o tempo não caminha: retorna. Avança e recua como a onda que insiste no mesmo ponto sem jamais se repetir. Em 2026, quando o festival que a inscreveu definitivamente no mapa simbólico da música brasileira completa cinquenta anos, não se celebra apenas uma cronologia, mas um ethos. Desde os anos 1970, Saquarema tornou-se um território onde corpo, paisagem e som aprenderam a coexistir sem hierarquia. O surf ensinou a leitura do instante; o rock, a recusa do adestramento. Nada ali nasceu para ser estável: o palco é provisório, plateia é o vento e a memória se organiza como a maré, por retornos, não por datas.

O festival consolidou-se, ao longo de meio século, como espaço de passagem. Não canonizou estilos, não ergueu ortodoxias. Fez algo mais raro: manteve-se poroso. Gerações se tocaram sem se neutralizar; linguagens se cruzaram sem se diluir. Celebrar cinquenta anos é reafirmar essa vocação para o encontro que desloca, não para a síntese que apazigua. Em Saquarema, a música nunca veio preencher o silêncio; mas dialogar com ele. É nesse litoral aberto, onde a escuta precede o gesto, que a banda Bicho da Seda encontra seu lugar mais preciso que nunca confundiu rock com impacto. Seu gesto sempre foi outro: o da atenção. Canções que não gritam, mas permanecem; letras que não explicam, mas cercam. Há ali uma delicadeza que não consola, interroga. Um lirismo que não ornamenta, mas fere de leve, fundo. O Bicho da Seda escolheu o caminho menos visível e, por isso mesmo, mais radical: falar baixo e íntimo sem ser frágil ou menor.

Num cenário musical frequentemente capturado pela urgência do refrão e retórica do excesso, a banda operou um desvio silencioso. Apostou na atmosfera, ambiguidade, no detalhe emocional como forma de pensamento. Com isso, ampliou o campo do possível no rock nacional. Sua importância não se mede pela estridência, mas pela autorização que concedeu: o rock pode amadurecer sem endurecer, pensar sem perder a canção, envelhecer sem cinismo. Em Saquarema, onde nada se impõe à força, essa ética sonora encontra seu ambiente natural, tudo ali acontece por contágio.

Esse gesto, contudo, não surge do nada. Ele se inscreve numa linhagem específica do rock brasileiro, que forjada no Sul, onde a palavra sempre veio antes do efeito. O rock gaúcho nasceu longe do mar, mas nunca distante da intempérie. Posteriormente, Porto Alegre, construiria uma cena que compreendeu cedo que tocar também era pensar. Letras densas sem pedantismo, ironia sem esvaziamento, crítica sem panfleto. Uma música que recusa tanto o heroísmo quanto a caricatura.

É desse caldo que emerge um dos gestos mais precisos e paradoxais do rock brasileiro: Amigo Punk, escrita por Frank Jorge e eternizada pela Graforréia Xilarmônica. Não um hino oficial, mas real, canto de exaltação, retrato em tom de confidência. Talvez por isso tenha se tornado, no imaginário do Rio Grande do Sul, mais durável que qualquer marcha cívica. “Amigo Punk” desloca o punk do espetáculo para a existência. O personagem da letra não é arquétipo nem bandeira: é alguém que envelheceu, que carrega no corpo as marcas de uma promessa histórica não cumprida.

A ironia da canção não ridiculariza, mas protege, riso curto, seco, típico do Sul, que não serve para aliviar, mas para suportar. Reconhecer o desgaste do ideal não é traição ao espírito punk; mas sua radicalização final. Recusar a mentira da eterna juventude é, aqui, o último gesto de honestidade. Formalmente, a letra se constrói pela economia extrema. Frases diretas, vocabulário cotidiano, nenhuma ornamentação. Mas essa simplicidade é armadilha: cada verso carrega uma ética inteira. Viver sem glamour, resistir sem pose, continuar apesar do esvaziamento das promessas.

O punk de Frank Jorge não é o da vitrine cultural; mas da persistência silenciosa, da amizade como forma mínima de resistência. Por isso a canção ocupa um lugar tão singular. Ela não exalta o território, mas captura um modo de estar nele. Não pede voz empostada, pede escuta. Não promete futuro, não glorifica o passado. Apenas permanece. Como certas amizades e festivais que, ao completar cinquenta anos, seguem recusando o monumento para permanecerem travessia. Entre o litoral aberto de Saquarema, a delicadeza tensa do Bicho da Seda está a lucidez afetiva de “Amigo Punk”, que desenha se a mesma ética: recusa do excesso, fidelidade ao gesto, coragem de envelhecer sem pedir desculpas. O rock, aqui, não é nostalgia nem mercadoria, mas forma de escuta. E algumas escutas, quando verdadeiras, atravessam décadas como ondas bem formadas: não fazem alarde, não pedem pressa, mas mudam o desenho da praia quando chegam.

Prof. Dr. Wellington Lima Amorim - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, filósofo, psicanalista e escritor 

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